Monday, 22 August 2011

A lógica do Prof. Marcelo sobre o TGV

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um comentador televisivo inteligente, influente e popular. Possuindo uma capacidade de comunicação extraordinária e fontes de informação privilegiadas, utiliza a sua aptidão analítica e razoável grau de independência para nos brindar semanalmente com comentários de grande influência sobre a opinião pública.

Apesar de ser militante destacado do PSD e consultor jurídico de vários interesses económicos, o enviesamento dos seus comentários a favor dessas entidades tem sido geralmente explícito e moderado. Por isso, os telespectadores, após o devido desconto, dão-lhe maior credibilidade que à maioria dos outros comentadores que são meros advogados ou porta-vozes de interesses não declarados.

No entanto, por vezes o Professor exagera. Por exemplo, ontem ao tentar defender o iminente volta-face na posição do Governo sobre a construção do TGV utilizou um raciocínio de bradar aos céus, e que daria direito a chumbo imediato em qualquer exame de lógica. Disse ele que como havia uns subsídios da União Europeia que só podiam ser utilizados para o TGV então teria de se avançar com o TGV para utilizar esses subsídios.

Imagine o leitor que eu lhe dava mil Euros na condição de você queimar 10 mil notas de euro. Você aceitava? Claro que não! Ou, se preferir, imagine que eu lhe oferecia 10 mil Euros na condição de você ir comprar um carro de luxo (e.g. um Ferrari) por 100 mil Euros que você não tinha condições para pagar e manter. Você aceitaria? Claro que não! Ora, é precisamente isso que acontece com o TGV.

O país não precisa e não pode pagar a manutenção do TGV Lisboa-Madrid, mesmo que o mesmo lhe seja oferecido totalmente de graça. Para confirmar isso, não é preciso nomear comissões de sábios ou encomendar mais estudos a consultores. Basta olhar para o mapa da Península Ibérica e consultar as contas da RENFE e notícias recentes sobre o encerramento de serviços por falta de passageiros.

No entanto, o problema tem uma solução muito simples e sem custos para Portugal. Portugal pode ceder a sua quota-parte nos subsídios da União Europeia para a rede de alta velocidade à Espanha, na condição desta construir e explorar por conta própria linhas de alta velocidade entre Madrid e Lisboa, Sevilha e Lisboa e Corunha Porto. Portugal poderia mesmo ceder gratuitamente os respectivos terrenos, desde que a RENFE garantisse que durante 40 anos fazia pelo menos quatro viagens diárias entre aquelas cidades. Mas nunca deverá aceitar suportar os inevitáveis défices de exploração.

Portugal não pode ignorar que o nosso vizinho, com o pretexto de preservar o centralismo de Madrid e a unidade de Espanha face às Autonomias, de forma insensata e financeiramente desastrosa, enveredou há 20 anos pela construção da 2ª maior rede mundial de alta velocidade. É pois natural que deseje alargar essa rede a Portugal.

Por nós tudo bem, desde que sejam eles a pagar a sua exploração deficitária.

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