O crescente radicalismo à esquerda e à direita no Sul e Norte da Europa tem demasiadas semelhanças com o que se passou no período 1917-1934 para que os mais esclarecidos fiquem indiferentes.
As suas origens ideológicas são as mesmas – anti capitalismo, nacionalismo, fascismo, nacional-socialismo, comunismo, trotskismo, anarquismo e antissemitismo, embora hoje se apresentem com tonalidades diferentes como libertarianismo moral, ambientalismo, pró-Palestina e anti-imigração.
As condições criadas pela crise financeira de 2008 são semelhantes às da crise de 1929, nomeadamente a falência de instituições bancárias, as desvalorizações competitivas, o protecionismo e o desemprego massivo.
As condições políticas também são semelhantes se considerarmos que a intransigência e o austerismo Alemão em relação aos países do sul é equivalente à indiferença dos vencedores da 1ª Grande Guerra em relação às reparações Alemãs, que a evolução política na Hungria/Áustria e na Grécia de hoje lembram a subida ao poder dos fascistas em Itália e dos Republicanos em Espanha, e que o pacifismo e apaziguamento relativamente ao nazismo crescente nos anos 30 é semelhante ao que hoje existe perante a Rússia e o Irão.
Se estas condições geram movimentos de massas semelhantes (veja-se a manifestação do Podemos em Madrid) então temos de relembrar o que se aprendeu sobre a psicologia de massas nos anos 30. Um dos ensinamentos é que a maneira de controlar uma multidão (eleitorado) irracional não é enfrentá-la mas sim encaminhá-la para um caminho que evite o abismo. Por vezes é mesmo preciso fingir ser mais radical do que os líderes da multidão.
Por isso, nas atuais circunstâncias, os partidos reformistas (em especial o PSD), deviam abandonar a sua retórica pró-austeridade. Sobretudo quando pode invocar que apenas cumpriu 1/3 do programa da Troika e que por isso Portugal não está hoje na situação da Grécia.
Na verdade, com o oportunismo que o caracteriza, António Costa está a fazer isso ao insinuar que é mais Syriza do que Pasok. Porém, aquilo que oferece é apenas incerteza.
O centro-direita em Portugal está hoje perante uma situação semelhante à que Keynes enfrentou quando lhe foi pedido que preparasse programas de rádio para contrapor à propaganda Nazi sobre o investimento público e uma nova ordem económica mundial. Ele optou então por explicar que os aliados fariam uma melhor gestão do investimento público, de forma mais equitativa, pacífica, livre e sustentável.
Em Portugal, mais uma vez, podemos evitar o desastre iniciado na Grécia e bastante provável em Espanha. Para tal, é preciso romper com o discurso e com as caras que o eleitorado associa com os nossos problemas de forma a poder encabeçar o desejo de mudança dos Portugueses.
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Sunday, 1 February 2015
“Podemos” evitar repetir os erros dos anos 30
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Monday, 10 November 2014
Sim, “Podemos”, mas não queremos!
O reaparecimento na Europa de partidos que contestam a partidocracia existente em muitos países pode ser um fenómeno passageiro e positivo mas também pode transformar-se num perigo para a paz e democracia. O ressurgimento de movimentos ou partidos alternativos acontece tanto à esquerda como à direita. Na direita os casos mais significativos são o IUKP, Partido para a Independência do Reino Unido, a Frente Nacional na França e o Partido Anti Euro na Alemanha. À esquerda os partidos mais significativos são a Coligação de Esquerda Radical na Grécia (SYRIZA) e o partido Podemos em Espanha.
O aparecimento de partidos anti sistema criados em torno de questões específicas (regionais, imigração, ambiente, agricultura, reformados, utopias, etc.) ou de celebridades mediáticas (por exemplo Marinho Pinto em Portugal) são comuns e de curta duração acabando por desaparecer ou ficar reduzidos a um pequeno número de parlamentares. O seu aparecimento é positivo pois trás uma lufada de ar fresco e humor à vida parlamentar sem por em causa a estabilidade política.
Porém, os partidos acima citados beneficiaram da insatisfação nacional (anti Euro no Reino Unido e Alemanha, imigração em França, austeridade na Grécia e independentismo na Espanha) para atingirem um nível eleitoral que pode por em causa a própria democracia e a União Europeia. Um tal descalabro poderá ser facilitado por circunstâncias internacionais, como o neocomunismo de Putin na Rússia, o fundamentalismo islâmico e o antissemitismo no Médio Oriente ou por motivos nacionais como a desagregação do estado-nação na Espanha.
O caso Espanhol é porventura o mais dramático, pois o partido Podemos surgiu há menos de um ano e já supera os dois principais partidos nas intenções de voto dos eleitores Espanhóis. Como explicar esta erupção do partido Podemos? Na verdade, este partido não trás nada de novo. Em termos ideológicos limita-se a repetir uma série de utopias típicas da extrema-esquerda embora reforçadas com toques anarquistas e antipolíticos.
Para percebermos o seu sucesso temos pois de equacionar o conjunto de circunstâncias que o propiciaram. Desde logo, o famoso temperamento e impaciência do povo Espanhol que o levam a alternar entre extremos como por exemplo o anarquismo e o fascismo no século passado. Depois o sentido de insegurança provocado pelas autonomias, pelo desemprego elevado e até pelos problemas na família real.
Estas particularidades foram habilmente exploradas por um jovem carismático e celebridade televisiva (Pablo Iglésias) e encontraram uma grande recetividade nos intelectuais insatisfeitos com a democracia representativa e entre os jovens naturalmente sequiosos de utopias.
Ambos os motivos de insatisfação são razoáveis, mas as alternativas propostas seriam bem piores. Por exemplo, na era das redes sociais a apropriação da democracia representativa por oligarquias partidárias que apenas se servem a si próprias torna-se mais visível e é natural que os eleitores se deixem seduzir por ideias antigas, mas perigosas, como a democracia participativa ou a democracia popular. No entanto, a história está repleta de experiências dessas que acabaram invariavelmente em ditaduras. Por isso, é importante explicar aos mais jovens o que deve ser a democracia representativa, quais as suas limitações e como podemos aperfeiçoá-la.
A procura de utopias é, felizmente, uma das virtudes da adolescência e da juventude. Aos adultos cabe moderá-la o quanto baste. Quando ensinamos a uma criança que não pode comer todos os chocolates que lhe apetece, temos três métodos: deixá-la aprender à sua própria custa (i.e. comer até ir parar ao hospital com diarreia), proibir os chocolates e castigar severamente a desobediência ou deixá-los comer apenas com moderação e explicar-lhes porquê. Para os adultos, o deixar fazer ou o reprimir são sempre as soluções mais fáceis, mas, infelizmente, as menos eficazes e as mais perigosas, sobretudo quando os riscos são irreversíveis.
Por exemplo, nos anos sessenta, nós contestámos o materialismo dos nossos pais e pretendíamos criar um mundo baseado no amor livre, musica, drogas e vida comunitária. A vida ensinou-nos naturalmente que o “amor e uma cabana” é uma utopia que dura menos do que uma paixão de verão e acabámos por nos integrar na democracia representativa sem fazer a revolução que idealizávamos. Mas conseguimos algo - uma sociedade mais livre de preconceitos sociais e preocupações materiais. No entanto, tal como a obesidade ou as borbulhas causadas pelo chocolate, também o nosso idealismo deixou marcas duradouras na geração seguinte em termos de desagregação familiar e alienação.
Pelo contrário, a geração atual é materialista nos seus desejos (sejam eles roupas de marca, viagens, etc.) mas é idealista ao pensar que o consumismo é um direito que deve ser assegurado pelo estado ou pelos pais. Se, como nós, vier a aprender por experiência própria que tal só se conquista com trabalho será a evolução natural das coisas. Porém, se tal como no passado, a sua ânsia for explorada por demagogos com fins revolucionários, acabará por cair num dos conhecidos abismos anticapitalistas - sejam eles do tipo comunista ou fascista.
É neste sentido que os Espanhóis correm perigo com o partido “Podemos”. Quais são os objetivos deste partido:
1) Assembleias de cidadãos, i.e. democracia popular - todos sabemos como essas experiências acabaram em ditadura na Rússia, Coreia, Espanha ou Cuba;
2) Recuperar a economia, quem não quer? A questão está em como: através do mercado ou, como eles deixam antever, através da coletivização cujos resultados são sobejamente conhecidos;
3) Conquistar a liberdade, de quem? Já vivemos numa sociedade livre;
4) Conquistar a igualdade, de quê? género, direitos, deveres, rendimento ou riqueza? Todos sabemos como acabaram as Revoluções Francesa e Russa;
5) Recuperar a fraternidade, como? Quando o partido defende mais promiscuidade e menos família e cerca de metade da população já depende do estado social;
6) Conquistar a soberania, a que nível? Local, regional, nacional, continental ou global. Para quê? Para acabar com a União Europeia, que tanto custou a criar, e voltar aos nacionalismos que tantas guerras fomentaram na Europa;
7) Recuperar a terra, para quem? Parece que desconhecem o desastre da reforma agrária no Alentejo ou a experiência de Mao que matou milhões de Chineses à fome.
Em conclusão, a juventude deve olhar para este programa e dizer:
Sim, podemos! Mas não queremos!
Não queremos voltar a ser escravizados!
Não queremos destruir a União Europeia!
Não queremos demagogias!
O aparecimento de partidos anti sistema criados em torno de questões específicas (regionais, imigração, ambiente, agricultura, reformados, utopias, etc.) ou de celebridades mediáticas (por exemplo Marinho Pinto em Portugal) são comuns e de curta duração acabando por desaparecer ou ficar reduzidos a um pequeno número de parlamentares. O seu aparecimento é positivo pois trás uma lufada de ar fresco e humor à vida parlamentar sem por em causa a estabilidade política.
Porém, os partidos acima citados beneficiaram da insatisfação nacional (anti Euro no Reino Unido e Alemanha, imigração em França, austeridade na Grécia e independentismo na Espanha) para atingirem um nível eleitoral que pode por em causa a própria democracia e a União Europeia. Um tal descalabro poderá ser facilitado por circunstâncias internacionais, como o neocomunismo de Putin na Rússia, o fundamentalismo islâmico e o antissemitismo no Médio Oriente ou por motivos nacionais como a desagregação do estado-nação na Espanha.
O caso Espanhol é porventura o mais dramático, pois o partido Podemos surgiu há menos de um ano e já supera os dois principais partidos nas intenções de voto dos eleitores Espanhóis. Como explicar esta erupção do partido Podemos? Na verdade, este partido não trás nada de novo. Em termos ideológicos limita-se a repetir uma série de utopias típicas da extrema-esquerda embora reforçadas com toques anarquistas e antipolíticos.
Para percebermos o seu sucesso temos pois de equacionar o conjunto de circunstâncias que o propiciaram. Desde logo, o famoso temperamento e impaciência do povo Espanhol que o levam a alternar entre extremos como por exemplo o anarquismo e o fascismo no século passado. Depois o sentido de insegurança provocado pelas autonomias, pelo desemprego elevado e até pelos problemas na família real.
Estas particularidades foram habilmente exploradas por um jovem carismático e celebridade televisiva (Pablo Iglésias) e encontraram uma grande recetividade nos intelectuais insatisfeitos com a democracia representativa e entre os jovens naturalmente sequiosos de utopias.
Ambos os motivos de insatisfação são razoáveis, mas as alternativas propostas seriam bem piores. Por exemplo, na era das redes sociais a apropriação da democracia representativa por oligarquias partidárias que apenas se servem a si próprias torna-se mais visível e é natural que os eleitores se deixem seduzir por ideias antigas, mas perigosas, como a democracia participativa ou a democracia popular. No entanto, a história está repleta de experiências dessas que acabaram invariavelmente em ditaduras. Por isso, é importante explicar aos mais jovens o que deve ser a democracia representativa, quais as suas limitações e como podemos aperfeiçoá-la.
A procura de utopias é, felizmente, uma das virtudes da adolescência e da juventude. Aos adultos cabe moderá-la o quanto baste. Quando ensinamos a uma criança que não pode comer todos os chocolates que lhe apetece, temos três métodos: deixá-la aprender à sua própria custa (i.e. comer até ir parar ao hospital com diarreia), proibir os chocolates e castigar severamente a desobediência ou deixá-los comer apenas com moderação e explicar-lhes porquê. Para os adultos, o deixar fazer ou o reprimir são sempre as soluções mais fáceis, mas, infelizmente, as menos eficazes e as mais perigosas, sobretudo quando os riscos são irreversíveis.
Por exemplo, nos anos sessenta, nós contestámos o materialismo dos nossos pais e pretendíamos criar um mundo baseado no amor livre, musica, drogas e vida comunitária. A vida ensinou-nos naturalmente que o “amor e uma cabana” é uma utopia que dura menos do que uma paixão de verão e acabámos por nos integrar na democracia representativa sem fazer a revolução que idealizávamos. Mas conseguimos algo - uma sociedade mais livre de preconceitos sociais e preocupações materiais. No entanto, tal como a obesidade ou as borbulhas causadas pelo chocolate, também o nosso idealismo deixou marcas duradouras na geração seguinte em termos de desagregação familiar e alienação.
Pelo contrário, a geração atual é materialista nos seus desejos (sejam eles roupas de marca, viagens, etc.) mas é idealista ao pensar que o consumismo é um direito que deve ser assegurado pelo estado ou pelos pais. Se, como nós, vier a aprender por experiência própria que tal só se conquista com trabalho será a evolução natural das coisas. Porém, se tal como no passado, a sua ânsia for explorada por demagogos com fins revolucionários, acabará por cair num dos conhecidos abismos anticapitalistas - sejam eles do tipo comunista ou fascista.
É neste sentido que os Espanhóis correm perigo com o partido “Podemos”. Quais são os objetivos deste partido:
1) Assembleias de cidadãos, i.e. democracia popular - todos sabemos como essas experiências acabaram em ditadura na Rússia, Coreia, Espanha ou Cuba;
2) Recuperar a economia, quem não quer? A questão está em como: através do mercado ou, como eles deixam antever, através da coletivização cujos resultados são sobejamente conhecidos;
3) Conquistar a liberdade, de quem? Já vivemos numa sociedade livre;
4) Conquistar a igualdade, de quê? género, direitos, deveres, rendimento ou riqueza? Todos sabemos como acabaram as Revoluções Francesa e Russa;
5) Recuperar a fraternidade, como? Quando o partido defende mais promiscuidade e menos família e cerca de metade da população já depende do estado social;
6) Conquistar a soberania, a que nível? Local, regional, nacional, continental ou global. Para quê? Para acabar com a União Europeia, que tanto custou a criar, e voltar aos nacionalismos que tantas guerras fomentaram na Europa;
7) Recuperar a terra, para quem? Parece que desconhecem o desastre da reforma agrária no Alentejo ou a experiência de Mao que matou milhões de Chineses à fome.
Em conclusão, a juventude deve olhar para este programa e dizer:
Sim, podemos! Mas não queremos!
Não queremos voltar a ser escravizados!
Não queremos destruir a União Europeia!
Não queremos demagogias!
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Monday, 22 August 2011
A lógica do Prof. Marcelo sobre o TGV
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um comentador televisivo inteligente, influente e popular. Possuindo uma capacidade de comunicação extraordinária e fontes de informação privilegiadas, utiliza a sua aptidão analítica e razoável grau de independência para nos brindar semanalmente com comentários de grande influência sobre a opinião pública.
Apesar de ser militante destacado do PSD e consultor jurídico de vários interesses económicos, o enviesamento dos seus comentários a favor dessas entidades tem sido geralmente explícito e moderado. Por isso, os telespectadores, após o devido desconto, dão-lhe maior credibilidade que à maioria dos outros comentadores que são meros advogados ou porta-vozes de interesses não declarados.
No entanto, por vezes o Professor exagera. Por exemplo, ontem ao tentar defender o iminente volta-face na posição do Governo sobre a construção do TGV utilizou um raciocínio de bradar aos céus, e que daria direito a chumbo imediato em qualquer exame de lógica. Disse ele que como havia uns subsídios da União Europeia que só podiam ser utilizados para o TGV então teria de se avançar com o TGV para utilizar esses subsídios.
Imagine o leitor que eu lhe dava mil Euros na condição de você queimar 10 mil notas de euro. Você aceitava? Claro que não! Ou, se preferir, imagine que eu lhe oferecia 10 mil Euros na condição de você ir comprar um carro de luxo (e.g. um Ferrari) por 100 mil Euros que você não tinha condições para pagar e manter. Você aceitaria? Claro que não! Ora, é precisamente isso que acontece com o TGV.
O país não precisa e não pode pagar a manutenção do TGV Lisboa-Madrid, mesmo que o mesmo lhe seja oferecido totalmente de graça. Para confirmar isso, não é preciso nomear comissões de sábios ou encomendar mais estudos a consultores. Basta olhar para o mapa da Península Ibérica e consultar as contas da RENFE e notícias recentes sobre o encerramento de serviços por falta de passageiros.
No entanto, o problema tem uma solução muito simples e sem custos para Portugal. Portugal pode ceder a sua quota-parte nos subsídios da União Europeia para a rede de alta velocidade à Espanha, na condição desta construir e explorar por conta própria linhas de alta velocidade entre Madrid e Lisboa, Sevilha e Lisboa e Corunha Porto. Portugal poderia mesmo ceder gratuitamente os respectivos terrenos, desde que a RENFE garantisse que durante 40 anos fazia pelo menos quatro viagens diárias entre aquelas cidades. Mas nunca deverá aceitar suportar os inevitáveis défices de exploração.
Portugal não pode ignorar que o nosso vizinho, com o pretexto de preservar o centralismo de Madrid e a unidade de Espanha face às Autonomias, de forma insensata e financeiramente desastrosa, enveredou há 20 anos pela construção da 2ª maior rede mundial de alta velocidade. É pois natural que deseje alargar essa rede a Portugal.
Por nós tudo bem, desde que sejam eles a pagar a sua exploração deficitária.
Apesar de ser militante destacado do PSD e consultor jurídico de vários interesses económicos, o enviesamento dos seus comentários a favor dessas entidades tem sido geralmente explícito e moderado. Por isso, os telespectadores, após o devido desconto, dão-lhe maior credibilidade que à maioria dos outros comentadores que são meros advogados ou porta-vozes de interesses não declarados.
No entanto, por vezes o Professor exagera. Por exemplo, ontem ao tentar defender o iminente volta-face na posição do Governo sobre a construção do TGV utilizou um raciocínio de bradar aos céus, e que daria direito a chumbo imediato em qualquer exame de lógica. Disse ele que como havia uns subsídios da União Europeia que só podiam ser utilizados para o TGV então teria de se avançar com o TGV para utilizar esses subsídios.
Imagine o leitor que eu lhe dava mil Euros na condição de você queimar 10 mil notas de euro. Você aceitava? Claro que não! Ou, se preferir, imagine que eu lhe oferecia 10 mil Euros na condição de você ir comprar um carro de luxo (e.g. um Ferrari) por 100 mil Euros que você não tinha condições para pagar e manter. Você aceitaria? Claro que não! Ora, é precisamente isso que acontece com o TGV.
O país não precisa e não pode pagar a manutenção do TGV Lisboa-Madrid, mesmo que o mesmo lhe seja oferecido totalmente de graça. Para confirmar isso, não é preciso nomear comissões de sábios ou encomendar mais estudos a consultores. Basta olhar para o mapa da Península Ibérica e consultar as contas da RENFE e notícias recentes sobre o encerramento de serviços por falta de passageiros.
No entanto, o problema tem uma solução muito simples e sem custos para Portugal. Portugal pode ceder a sua quota-parte nos subsídios da União Europeia para a rede de alta velocidade à Espanha, na condição desta construir e explorar por conta própria linhas de alta velocidade entre Madrid e Lisboa, Sevilha e Lisboa e Corunha Porto. Portugal poderia mesmo ceder gratuitamente os respectivos terrenos, desde que a RENFE garantisse que durante 40 anos fazia pelo menos quatro viagens diárias entre aquelas cidades. Mas nunca deverá aceitar suportar os inevitáveis défices de exploração.
Portugal não pode ignorar que o nosso vizinho, com o pretexto de preservar o centralismo de Madrid e a unidade de Espanha face às Autonomias, de forma insensata e financeiramente desastrosa, enveredou há 20 anos pela construção da 2ª maior rede mundial de alta velocidade. É pois natural que deseje alargar essa rede a Portugal.
Por nós tudo bem, desde que sejam eles a pagar a sua exploração deficitária.
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