Questionário

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Thursday, 24 September 2015

As próximas eleições e o dilema de escolher o mal menor

Nas atuais eleições muito Portugueses enfrentam o dilema de ter de escolher o menor dos males. Muitos eleitores desejam punir a atual coligação mas temem que alternativa socialista seja ainda pior. O dilema foi apresentado de forma brilhante neste artigo (http://observador.pt/opiniao/que-desconto-me-fazem-por-este-governo/ ) da Maria João Marques, que o resolveu afirmando que pessoalmente não iria votar na coligação mas apelando a que outros o fizessem. Será esta a melhor solução?

A resposta a esta questão depende da perceção que temos sobre a importância do nosso voto.

Se acreditarmos que o nosso voto poderá ser decisivo então temos que optar pelo mal menor, e a Maria João devia votar na coligação.

Se, como as sondagens sugerem, nem a coligação nem o partido socialista estão perto da maioria absoluta então já temos maior liberdade de voto, mas a nossa decisão deve ser influenciada pelo tipo de governo que poderá sair destas eleições.

Se for um governo minoritário liderado por quem tiver mais votos, então a decisão da Maria João devia depender de quão próximo estão os dois rivais. Isto é, se as sondagens apontarem para um empate devia votar na coligação, caso contrário, terá a liberdade de optar por um voto de protesto.

Se, a alternativa for um governo de coligação, então terá de avaliar se a melhor solução para as próximas eleições, que se seguirão a um governo com vida provavelmente curta, é ter o seu mal menor a liderar a coligação ou não. Se a sua avaliação for sim, então devia votar na coligação. Se for não, terá liberdade para fazer um voto de protesto.

Vejamos agora quais são as suas opções para um voto de protesto, agrupando-as em dois grupos – protesto por omissão ou votação em partidos “alternativos”.

O voto de protesto por omissão tem três opções: abstenção, voto nulo ou em branco. Infelizmente, o nosso sistema eleitoral não permite a representação dos votos nulos com cadeiras vazias no parlamento, e, alguns eleitores temem que a sua mesa de voto possa transformar o seu voto nulo em válido. Por outro lado a abstenção pode confundir-se com o desinteresse e não com um voto de protesto. Finalmente, num país com muitos idosos e analfabetos, o voto nulo tem a desvantagem de poder confundir-se com os erros genuínos desses eleitores. Tudo pesado, talvez o voto nulo ainda seja a sua melhor opção se não tiver partidos alternativos a quem possa dar o seu voto.

A votação em partidos alternativos deve distinguir entre partidos com possibilidade de terem representação parlamentar ou não.

Infelizmente, em relação ao primeiro grupo, entre nós a escolha não é muita pois apenas temos dois partidos de extrema-esquerda (PCP e BE), o que no caso da Maria João invalida esta opção.

Quanto aos partidos de protesto a sua maioria também é de extrema-esquerda ou extrema-direita com as quais a Maria João não se identificará. Os restantes, ou são partidos pessoalizados em torno de demagogos com objetivos pouco claros (e.g. PDR ou JPP) ou são partidos de grupos de interesses específicos nem sempre transparentes (e.g. MPT, PURP ou PAN). Se a Maria João simpatizar com algum desses movimentos (o que não me parece), a sua opção será votar no mais simpático.

Em conclusão, em situações em que temos de escolher um mal menor cada eleitor deve fazer a sua avaliação das múltiplas alternativas que tem (aqui ilustradas com o exemplo da Maria João). Já fiz a minha própria avaliação seguindo este método. Resta-me desejar que o método também possa ser útil a outros eleitores.


Monday, 23 March 2015

Mariana Mortágua vs. Maria João Marques

As televisões descobriram finalmente uma nova geração de jovens políticas talentosas. Ainda bem! Como a Mariana é uma jovem de esquerda e a Maria João de direita é interessante analisar o que as distingue dos outros jovens políticos e entre si.

Trata-se de duas jovens bloggers que se destacam por serem entusiastas, inteligentes, cultas, bonitas, femininas e simpáticas.

O seu empenhamento, perspicácia e saber não podiam contrastar mais com a perceção geral dos jovens políticos saídos das jotas - geralmente alunos medíocres de universidades igualmente medíocres, produto do nepotismo e intriga partidária, preletores dos lugares-comuns típicos do carreirismo nos jobs for the boys.

É também curioso contrastar a sua feminidade com a de outras jovens políticas. Por exemplo, o contraste da sua beleza natural com o pretensiosismo da beleza de Joana Amaral Dias. Ou, o contraste da sua feminidade, com a dureza de Catarina Martins a repetir a cassete do fanatismo revolucionário. E, ainda mais, o contraste da sua simpatia com o cinismo das not so young comentadoras do programa Barca do Inferno.

A Mariana e a Maria João são por isso duas jovens que podem e devem inspirar a juventude do nosso país. No entanto, o que é que as distingue politicamente?

De forma simplista podemos dizer que ambas se inspiram nos dois ideais do século XIX, a Maria João no liberalismo clássico e a Mariana no socialismo utópico. Por isso, podemos antecipar que a Maria João terá mais razão. De facto, a história e a teoria já nos mostraram abundantemente que o racionalismo da primeira criou liberdade e riqueza enquanto o idealismo da segunda gerou sempre tirania e miséria.

No entanto, isso não significa que no imediato a Mariana não seja mais atrativa para muitos jovens. Em primeiro lugar, porque a nossa comunicação social está excessivamente dominada pela esquerda, que não hesitará em transformá-la numa superstar se isso lhe der dividendos. Em segundo lugar, porque os jovens são naturalmente mais idealistas e impacientes e como tal mais atraídos pelos mitos revolucionários. Mas, e sobretudo, porque a substituição de um estado patriarcal todo-poderoso por uma mão invisível omnisciente despiu o liberalismo radical da empatia indispensável ao ser humano e em especial aos jovens.

Mas não precisava de ser assim. O radicalismo liberal é apenas uma doença infantil dos economistas que tendem a identificar os modelos baseados no mítico homo economicus com a realidade. Os modelos são apenas abstrações necessárias à análise dedutiva ou indutiva mas não podem incluir toda a complexidade humana, tanto mais que apenas agora começamos a saber um pouco sobre o cérebro humano. Por isso, o liberalismo tem de encontrar a sua própria humanidade e simpatia se quiser preencher os sonhos e idealismo da juventude.

Na verdade a renovação do espirito liberal talvez não seja suficiente numa fase de amadurecimento do capitalismo. As novas gerações não podem continuar prisioneiras das ideologias que resultaram das necessidades do século XIX. Têm de criar um idealismo para o século XXII, seja na economia, no papel do espiritualismo e convívio entre religiões, na bioética e na ciência ou em qualquer domínio.

Por isso não se trata apenas de deixar correr o tempo de acordo com o principio de Churchill de que “If you're not a liberal at twenty you have no heart, if you're not a conservative at forty you have no brain”, e desejar pacientemente que a Mariana chegue aos quarenta.

Para aqueles que, como eu, já iniciaram o crepúsculo, é particularmente gratificante ver o despontar de uma nova geração capaz de responder a esse desafio. Por isso, faço votos que a Maria João e a Mariana não se deixem corromper pela inevitável adulação dos media e que mantenham a sua frescura, irreverência, simplicidade e empatia para que o seu exemplo atraia cada vez mais jovens.