9 – Pela razão, contra o obscurantismo
Durante muitos séculos as sociedades humanas foram dominadas pelo medo do desconhecido. No entanto, desde o início da revolução científica no século XVI, o racionalismo tem vindo a ganhar caminho. Por vezes, mesmo violando o salutar princípio de que o conhecimento humano é sempre limitado e cometendo algumas barbaridades em nome desse mesmo racionalismo como aconteceu em relação à eugenia.
Em particular, o risco é maior quando se adoptam visões de determinismo histórico, que mais não são do que reedições de superstições religiosas, ou quando se quer usar a ciência para justificar determinadas escolhas ideológicos.
No entanto, a investigação científica deve ser livre e prosseguida pelo prazer da descoberta e não pela glória ou recompensa material. Tal objetivo era facilmente conseguido quando a investigação era uma atividade individual e com poucos recursos. Atualmente, trata-se de uma atividade profissional que requer investimentos significativos. Por isso, são necessárias leis sobre propriedade intelectual que protejam temporariamente o monopólio do conhecimento adquirido. Porém essa proteção não pode ser excessiva ou violar valores maiores como a prevenção de epidemias.
De modo semelhante, os cientistas devem ser protegidos contra as ações e atentados de grupos extremistas que apoiam a ignorância como uma forma de bênção ou dever divino, nomeadamente as filosofias sobre o relativismo anticientífico, o ceticismo pós-modernista, o messianismo e outras crenças (e.g. anti vacinas, transfusões de sangue, criacionismo, etc.) de grupos religiosos ou seitas (e.g. nova era, identidade cristã, etc.).
A instrumentalização da ciência para fins políticos é outro problema, hoje especialmente notório em relação às alterações climatéricas, onde apologistas e negacionistas se guerreiam sem recurso a conhecimentos científicos sólidos. Os ciclos climatéricos foram e são uma constante na evolução do nosso planeta sobre os quais ainda sabemos muito pouco e que, portanto, não podem justificar políticas irrefletidas nessa matéria.
De igual modo, a evolução científica está a alterar a relação de poder nas sociedades a favor dos que detêm o conhecimento em vez da força, enquanto a especialização e a robotização criam o receio de uma sociedade dual. Esta transição cria condições para um extremar de conflitos que podem mesmo ser catastróficos para a humanidade dado o potencial de destruição massiva das novas armas.
Por isso, uma direita moderna deve apoiar uma revolução científica que promova de forma equlibrada o desenvolvimento humano e o desenvolvimento tecnológico, nomeadamente:
9.1 Pugnar pelo progresso científico e combater o obscurantismo.
9.2 Reconhecer os limites do conhecimento e a sua perenidade.
9.3 Assegurar o rigor científico como base do desenvolvimento económico e social sustentado.
9.4 Defender uma relação equilibrada entre os valores morais e científicos.
9.5 Apoiar o investimento em ciência e tecnologia para fins pacíficos.
9.6 Combater o uso ilegítimo de novas tecnologias violadoras da privacidade e segurança individual.
9.7 Apoiar as leis sobre propriedade intelectual, sem prejudicar a disseminação do conhecimento científico.
9.8 Promover uma evolução paralela entre o desenvolvimento tecnológico e formas livres e democráticas de organização social.
9.9 Facilitar a disseminação dos resultados da ciência ao nível internacional.
9.10 Combater o fundamentalismo e o obscurantismo, nas suas múltiplas formas religiosas, filosóficas ou comportamentais.
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Friday, 28 June 2019
Por uma direita moderna: 9 – Pela razão, contra o obscurantismo
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Friday, 27 February 2015
Um argumento estúpido para acabar com os chumbos
As “eminências” pardas do nosso sistema educativo voltaram esta semana à baila com a ideia de reduzir o insucesso escolar através da passagem administrativa dos alunos que chumbam na avaliação (ou que ficam retidos, na linguagem politicamente correta do “eduquês” nacional).
O argumento foi que estes alunos custavam ao estado cerca de 600 milhões de Euros por ano. Se fosse essa a razão então abolia-se o ensino e o estado pouparia muito mais. É no entanto um argumento estupido se tal custo não for comparado com o custo para a totalidade dos alunos que seriam penalizados pelas passagens administrativas.
Um número muito elevado de reprovações só pode resultar de duas coisas – matérias e exigências desajustadas ou alunos preguiçosos e desmotivados. Pelo que me é dado observar como professor os níveis de exigência baixaram e os alunos não são mais preguiçosos do que sempre foram. Portanto a causa do elevado número de reprovações e desistências é um misto de matérias desajustadas e alunos desmotivados.
As primeiras são o resultado de reformas curriculares constantes e irrefletidas que tentaram impor teorias pedagógicas absurdas e não testadas. A desmotivação também resulta destas reformas mas é sobretudo o resultado da perda de autoridade dos pais e professores. À qual podemos ainda acrescentar a cultura de facilitismo muita espalhada entre nós em que o que interessa é o canudo e não a qualidade e exigência do que se aprendeu (vide episódios recentes que envolveram governantes).
O insucesso escolar tem de ser analisado nas suas múltiplas facetas, nomeadamente na maior ou menor aptidão dos alunos e nos diferentes sistemas e níveis de ensino.
Por exemplo, um sistema de passagem obrigatória pode ser aceitável no sistema universitário se a ele apenas tiverem acesso alunos com boa aptidão. Em tal sistema (como existe em Inglaterra), a passagem obrigatória ou atribuição de um “diploma de consolação” é na prática uma medida disciplinadora. Pois os alunos sabem que se saírem da Universidade com a nota mínima nenhum empregador reconhece as suas habilitações e eles próprios preferem omitir no CV que tiraram o curso.
Porém, nas atuais condições, aplicar tal sistema em Portugal seria inútil. Eu próprio já o testei nas minhas disciplinas sem qualquer resultado, porque outros colegas continuaram a inflacionar as notas e os alunos acabavam por sair com uma média aceitável mesmo sem saber nada. Isto é, sem um sistema de avaliações externas e de calibração da distribuição das notas a passagem obrigatória seria injusta e ineficaz. Tanto mais que o Estado Português, principal empregador de licenciados em Portugal, continua a não valorizar as notas e as escolas no seu recrutamento.
Em conclusão, optar pelo facilitismo das passagens obrigatórias é muito mais custoso do que o insucesso escolar. Atacar o problema do insucesso escolar pelos resultados e não pelas suas causas é uma estupidez.
O argumento foi que estes alunos custavam ao estado cerca de 600 milhões de Euros por ano. Se fosse essa a razão então abolia-se o ensino e o estado pouparia muito mais. É no entanto um argumento estupido se tal custo não for comparado com o custo para a totalidade dos alunos que seriam penalizados pelas passagens administrativas.
Um número muito elevado de reprovações só pode resultar de duas coisas – matérias e exigências desajustadas ou alunos preguiçosos e desmotivados. Pelo que me é dado observar como professor os níveis de exigência baixaram e os alunos não são mais preguiçosos do que sempre foram. Portanto a causa do elevado número de reprovações e desistências é um misto de matérias desajustadas e alunos desmotivados.
As primeiras são o resultado de reformas curriculares constantes e irrefletidas que tentaram impor teorias pedagógicas absurdas e não testadas. A desmotivação também resulta destas reformas mas é sobretudo o resultado da perda de autoridade dos pais e professores. À qual podemos ainda acrescentar a cultura de facilitismo muita espalhada entre nós em que o que interessa é o canudo e não a qualidade e exigência do que se aprendeu (vide episódios recentes que envolveram governantes).
O insucesso escolar tem de ser analisado nas suas múltiplas facetas, nomeadamente na maior ou menor aptidão dos alunos e nos diferentes sistemas e níveis de ensino.
Por exemplo, um sistema de passagem obrigatória pode ser aceitável no sistema universitário se a ele apenas tiverem acesso alunos com boa aptidão. Em tal sistema (como existe em Inglaterra), a passagem obrigatória ou atribuição de um “diploma de consolação” é na prática uma medida disciplinadora. Pois os alunos sabem que se saírem da Universidade com a nota mínima nenhum empregador reconhece as suas habilitações e eles próprios preferem omitir no CV que tiraram o curso.
Porém, nas atuais condições, aplicar tal sistema em Portugal seria inútil. Eu próprio já o testei nas minhas disciplinas sem qualquer resultado, porque outros colegas continuaram a inflacionar as notas e os alunos acabavam por sair com uma média aceitável mesmo sem saber nada. Isto é, sem um sistema de avaliações externas e de calibração da distribuição das notas a passagem obrigatória seria injusta e ineficaz. Tanto mais que o Estado Português, principal empregador de licenciados em Portugal, continua a não valorizar as notas e as escolas no seu recrutamento.
Em conclusão, optar pelo facilitismo das passagens obrigatórias é muito mais custoso do que o insucesso escolar. Atacar o problema do insucesso escolar pelos resultados e não pelas suas causas é uma estupidez.
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