As “eminências” pardas do nosso sistema educativo voltaram esta semana à baila com a ideia de reduzir o insucesso escolar através da passagem administrativa dos alunos que chumbam na avaliação (ou que ficam retidos, na linguagem politicamente correta do “eduquês” nacional).
O argumento foi que estes alunos custavam ao estado cerca de 600 milhões de Euros por ano. Se fosse essa a razão então abolia-se o ensino e o estado pouparia muito mais. É no entanto um argumento estupido se tal custo não for comparado com o custo para a totalidade dos alunos que seriam penalizados pelas passagens administrativas.
Um número muito elevado de reprovações só pode resultar de duas coisas – matérias e exigências desajustadas ou alunos preguiçosos e desmotivados. Pelo que me é dado observar como professor os níveis de exigência baixaram e os alunos não são mais preguiçosos do que sempre foram. Portanto a causa do elevado número de reprovações e desistências é um misto de matérias desajustadas e alunos desmotivados.
As primeiras são o resultado de reformas curriculares constantes e irrefletidas que tentaram impor teorias pedagógicas absurdas e não testadas. A desmotivação também resulta destas reformas mas é sobretudo o resultado da perda de autoridade dos pais e professores. À qual podemos ainda acrescentar a cultura de facilitismo muita espalhada entre nós em que o que interessa é o canudo e não a qualidade e exigência do que se aprendeu (vide episódios recentes que envolveram governantes).
O insucesso escolar tem de ser analisado nas suas múltiplas facetas, nomeadamente na maior ou menor aptidão dos alunos e nos diferentes sistemas e níveis de ensino.
Por exemplo, um sistema de passagem obrigatória pode ser aceitável no sistema universitário se a ele apenas tiverem acesso alunos com boa aptidão. Em tal sistema (como existe em Inglaterra), a passagem obrigatória ou atribuição de um “diploma de consolação” é na prática uma medida disciplinadora. Pois os alunos sabem que se saírem da Universidade com a nota mínima nenhum empregador reconhece as suas habilitações e eles próprios preferem omitir no CV que tiraram o curso.
Porém, nas atuais condições, aplicar tal sistema em Portugal seria inútil. Eu próprio já o testei nas minhas disciplinas sem qualquer resultado, porque outros colegas continuaram a inflacionar as notas e os alunos acabavam por sair com uma média aceitável mesmo sem saber nada. Isto é, sem um sistema de avaliações externas e de calibração da distribuição das notas a passagem obrigatória seria injusta e ineficaz. Tanto mais que o Estado Português, principal empregador de licenciados em Portugal, continua a não valorizar as notas e as escolas no seu recrutamento.
Em conclusão, optar pelo facilitismo das passagens obrigatórias é muito mais custoso do que o insucesso escolar. Atacar o problema do insucesso escolar pelos resultados e não pelas suas causas é uma estupidez.
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Friday, 27 February 2015
Um argumento estúpido para acabar com os chumbos
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