A opinião pública Portuguesa está dividida entre os mais cautelosos, que defendem que Portugal devia recorrer a um programa cautelar, e os arrojados que advogam a chamada saída limpa do programa de ajustamento para retomar a onda despesista e/ou camuflar o falhanço do programa da Troika.
Infelizmente, os mais prudentes não têm razão. Em teoria um programa cautelar é uma boa ideia, mas na realidade tais programas podem trazer mais desconfianças do que certezas.
A política de programas cautelares foi introduzida pelo FMI na sequência da crise Asiática de 1998, através das chamadas Contingent Credit Lines, mas em 2003 ninguém ainda tinha recorrido a essa medida que entretanto foi abandonada. A principal razão para a sua não utilização foi atribuída pelo FMI ao facto dos países elegíveis temerem que o recurso a essa medida fosse interpretado pelos mercados como um sinal de fraqueza e não de solidez.
Tal receio é fundado, como podemos ilustrar através de uma analogia simples. A Troika, tal como qualquer professor, tem vantagem em subavaliar o mau desempenho dos seus devedores (alunos) de forma a convencer os mercados (empregadores) a financiar (empregar) os participantes no seu programa.
Por exemplo, se este ano tivesse utilizado a minha exigência habitual mais de 60% dos meus alunos teria chumbado e no próximo ano o meu trabalho quase duplicaria. Em alternativa, podia passá-los de forma limpa, isto é subindo as notas entre 7 e 9 para dez sem quaisquer condições, ou dar-lhes 10 valores condicionados à frequência de aulas suplementares. Esta solução parece a mais razoável, mas na verdade era pior para mim (mais aulas) e para eles (menos oportunidades de emprego) porque os empregadores iriam interpretar a frequência de aulas suplementares como sinal de fraqueza e preteri-los no seu recrutamento.
Em conclusão, embora a “passagem administrativa” de Portugal no seu programa de ajustamento não augure um futuro brilhante para o nosso país, é preferível deixá-lo livre para tentar encontrar uma saída da crise ou voltar a pedir um novo programa de ajustamento dentro de três a cinco anos. Infelizmente, o programa de investimentos públicos já anunciado para o próximo QREN é mais uma lista de “elefantes brancos” sem qualquer rentabilidade, que agravará as disparidades regionais e faz antever que não evitaremos mais programas de ajustamento no futuro.
Showing posts with label programa cautelar. Show all posts
Showing posts with label programa cautelar. Show all posts
Wednesday, 12 February 2014
Programa Cautelar: Sim ou não?
Labels:
capitalismo de mercado,
crise financeira,
FMI,
Portugal,
programa cautelar,
programa de ajustamento,
Troika
Subscribe to:
Posts (Atom)